Desde que me entendo por gente, o que, confesso, não tem muito tempo, o assobio tem sido uma forma de comunicação muito utilizada, mas não por mim, ainda em evolução, que não desenvolvi tal capacidade.
Semana passada, eu estava parado no semáforo da Nove com a Portugal, suando mais que tampa de marmita nesse calor de Ribeirão Preto, quando passou uma senhora que me fez pensar: “na casa dessa aí se come bem, ah! se come”!. Como bons e puros seres humanos que somos, acredito que o rapaz ao lado, careca, também suado, compartilhou comigo esse pensamento, e resolveu se expressar com tal complexidade que fiquei assustado.
- Fiu Fiuuuuuuuuu!
A moça, com toda a classe que acompanha o sexo feminino, deu de ombros e continuou andando. Pode ser que ela não tenha ouvido, ou pode ser que, assim como eu, ela não saiba assobiar e se sentiu ofendida pelo rapaz.
Continuei meu passeio – a essa altura, o calor já me fazia sentir como uma cueca de padeiro – e parei perto de um varejão, onde vi dois homens carregando caixas de madeira repletas de mangas aden, estas que estavam tão suadas quanto eu, e percebi que eles faziam um esforço quase sobrenatural para tirá-las do caminhão e colocá-las no depósito do estabelecimento. Dezessete minutos depois, um dos homens, com cara de “missão cumprida”, passou o dedo na testa, inspirou e soltou:
- Fhhhhiiiiiiiuuuuu!
Entendi aquele assobio de língua presa como um fonema da palavra alívio.
Já no fim da tarde, busquei meus avós na rodoviária e, no caminho para casa, começou a tocar uma música que eles adoram, do Altemar Dutra. Pensei: um bolero não faz mal a ninguém. Aumentei o som. Meu avô, que sorri tão frequentemente quanto passagem de cometa, ameaçou uma curva no lábio inferior e tentou assobiar. Acredito que é uma tarefa complicada quando se usa dentadura.
Minha avó, toda fashion, sentada no banco da frente, acompanhou a música com larilarás por um tempo e, depois, desferiu o golpe final:
- Fiuuurifiuuu fiiiriuuuuuuuu…Fiiiiiiiiiiiiii, riiii, fifiuuuuu…
Pasmo, perguntei como ela conseguia.
- Ah, é só soprar o ar, meu filho.
Contei a ela que eu sabia assobiar para dentro, mas que tinha parado com isso por medo de ter uma insuficiência respiratória. Perdi a parte que isso pareceu uma piada, só que ela riu como se os ossos dela não doessem.
Perto de casa, paramos em outro semáforo e havia duas pessoas entregando panfletos, uma em cada lado da rua. A do lado do coração, com o dedão e o indicador na boca:
- fiuuuuuuuuuuuuuuu íííííííííí!!!
A resposta, do lado que eu escrevo:
- Já vô, Joana!.
Desiludido, fui embora pensando em como eu poderia me tornar um bom comunicador social se não dominava a mais simples (e ainda muito eficaz) forma de comunicação.
Depois desse dia, não tive mais dúvidas, comprei um apito e um ventilador.